Anarquia

por mvallebr.

O texto abaixo ilustra minhas opiniões pessoais sobre algo que normalmente é mal compreendido e tido com preconceito pela maioria das pessoas. Espero sair do yada yada convencional com esse texto e espero que ele contribua um pouco para fazer o leitor pensar sobre algumas coisas que provavelmente nunca tenha questionado.

Não sou dono da verdade e tenho plena ciência disso, mas peço por favor que antes de criticar ou xingar, pense se o que estará me apresentando são de fatos argumentos ou se é pura e simplesmente preconceito e falta de paciência com o tema.

Peço desculpas pelo tamanho do texto, mas mesmo depois de escrever tudo isso, ainda tenho a sensação de que esqueci de várias coisas. Não dá para explicar toda a ideia só em um artigo, então se gostar realmente do que está escrito aqui, ao invés de simplesmente concordar comigo, recomendo continuar questionando e ler bons livros sobre o assunto. É o que estou tentando fazer.

Motivação e minha história

        Antes de entrar no assunto em si, eu gostaria de discorrer um pouco sobre alguns pontos de minha experiência pessoal de vida, pois isso está totalmente relacionado com o porquê de eu ter me tornado um anarquista hoje.

Bom, além de ateu, eu sempre me considerei meio apolítico, não por não ter interesse em pesquisar ou por achar que política não influencia nossas vidas, mas porque já tive diversas "experiências políticas" desde o colegial até a faculdade e nunca vi sair nada de benéfico. Não sei vocês, mas me sinto um ET aqui na terra, acho que o mundo está uma verdadeira porcaria e de vez em quando dá vontade de ir morar em marte ou no meio do oceano. A maioria das coisas que deveria ser extremamente simples normalmente é complicada e por motivos idiotas. Como exemplos, vou citar algumas das coisas que mais afetaram minha vida até hoje:

  1. Na faculdade, os professores queriam mandar no que eu tinha que aprender ou saber. Não bastava aprender física lendo um livro ou pesquisar muito sobre um assunto e manjar do assunto, para ganhar nota de uma forma ou de outra você tinha que frequentar as aulas, pois mesmo que o professor não te bombasse por faltas, a matéria e os macetes que cairiam na prova seriam especificamente os dados em sala de aula. Nunca consegui aceitar isso. A faculdade poderia ser muuuuuito mais produtiva se eu não dependesse de um professor para me dizer o que fazer.
  2. No trabalho, cansei de ver pessoas gastando tempo de suas vidas totalmente em vão e me coagindo a fazer o mesmo. Fazer software, para quem estudou, é simples, fácil e divertido. Contudo, 90% do tempo se torna algo horrível quando trabalhando, pois tenho de ir até a empresa todos os dias sem necessidade real disso, tenho de ficar justificando para pessoas que não entendem bulhufas sobre o meu trabalho o porque estou fazendo o trabalho daquele jeito e normalmente sou obrigado a fazer as coisas da forma como acho errado e não concordo, sendo que NINGUÉM ganha com isso e nenhuma riqueza é gerada a mais no mundo com isso. É simplesmente idiota. Olho ao meu redor e vejo pessoas pensando o mesmo, todos insatisfeitos, e ninguém faz nada nem saberia o que fazer.
  3. Na vida pessoal, toda vez que preciso de algum tipo de serviço que requer mais inteligência por parte das pessoas, como é o caso de um advogado ou um médico, normalmente sou atendido por técnicos. É raro ver um médico hoje em dia que saiba medicina, a maioria segue um manual "sintoma X, exame Y, remédio Z". Tudo está virando um trabalho prático, tudo é pragmático ao extremo, a arte está morrendo, a ciência está sendo esquecida, ninguém questiona mais nada, ninguém quer PENSAR na melhor forma de fazer. O médico vai a faculdade para obter um emprego e ganhar dinheiro. Eu mesmo, quando fui a faculdade, estava mais preocupado com meu sustento que conhecimento, contra a minha vontade.
  4. Se você não for ateu, tente não ficar muito bravo comigo aqui, mas eu não consigo suportar a ideia de uma religião querendo me controlar e dizendo o que é melhor para mim. Não me conformo como as pessoas podem ir a uma igreja, ficar horas ouvindo alguém dizer a elas o que elas devem fazer de suas vidas, elas acharem isso normal e continuarem indo. Elas tem todo o direito de ir, mas definitivamente sou um ET.

Desde criança, nunca estive satisfeito em depender de alguém. Sempre quis minha independência, fazer o que eu quisesse, da forma como eu achasse melhor. Sempre achei isso meio óbvio e sempre lutei pela minha independência, primeiro da família, depois econômica, etc. Contudo, olho para o lado e vejo pessoas totalmente dependentes de TUDO para qualquer coisa que elas queiram fazer na vida, dependem de um padre para dizer o que é certo ou errado, dependem de um chefe para dizer o que fazer no trabalho, de um prefeito para dizer como como a cidade deve ser administrada, de legisladores para dizer as regras que devem seguir, de professores para dizer o que elas devem aprender, etc.  

Vejo elas sempre se dando mal (na minha visão) em vários campos (político, educação, trabalho) pois dependem SEMPRE de pessoas que normalmente não se importam tanto com elas quanto elas mesmas, mas ainda assim essas pessoas se dão por satisfeitas, me chamam de radical quando exponho minhas ideias e acham tudo perfeitamente natural. Reclamam, mas "sempre foi assim" e ninguém se preocupa em mover um dedo para mudar. Sou eu quem devo ser um chato...

Bom, de fato, eu devo ter sido trazido de algum planeta quando eu era criança. Pena que não sou super-homem! :D Mas insatisfeito do jeito que eu sou, sempre procurei alternativas para mudar a situação atual, pois pra mim não está bom da forma como está, não importa se sempre foi assim ou não, se eu quero que aconteça algo que nunca aconteceu antes então eu devo fazer algo que nunca foi feito antes.

Claro que já considerei a política como opção e já acreditei que saber votar poderia mudar o mundo, já houve épocas em que pensava em me candidatar a algo um dia, para ajudar a mudar o mundo, mudar meu país. Tive essa experiência de forma limitada na faculdade, eu ia nas reuniões de greve de professores e funcionários e tinha alguns contatos nos centro acadêmicos.

Fui procurar diversos grupos, conheci várias pessoas. A decisão que eu cheguei sobre cada um deles foi unânime, sempre pessoas querendo se dar bem em cima dos outros, em 99% das vezes quem estava envolvido com política estava defendendo interesses particulares de alguns e em especial de si mesmos. Nos raríssimos casos em que isso não acontecia, as pessoas não conseguiam ir pra frente e percebiam que não conseguiriam nada pelo caminho da política, elas eram atropeladas pelos outros. Na prática, foi exatamente isso o que aconteceu comigo, se eu me envolvesse mais com política, ao invés de ajudar a melhorar o mundo com meus centavos de contribuição ou eu acabaria me tornando um completo e inútil parasita ou então eu me daria mal no ramo.

Política não é o caminho, ok. Uma certeza eu tinha: se alguma coisa me ajudaria a melhorar o mundo ao meu redor em algo, para que eu não vivesse numa porcaria tão grande (sim, eu só quero um mundo melhor porque sou egoísta, não tem nada a ver com o tal de altruísmo, que na verdade não existe), seria CONHECIMENTO. Continuei buscando pelo mesmo, principalmente na época da faculdade. Fora as pessoas e amigos que me ajudaram muito durante todo o período em que fiquei estudando, meu sentimento foi que a faculdade em si só me atrapalhava.

Você não podia gastar tempo se apaixonando por algo, estudando algo por gosto ou criando um projeto para tentar colocar a teoria em prática, tinha que gastar o tempo bajulando um professor e obedecendo a ele, tinha que ir até as aulas mesmo que achasse que elas eram simplesmente um tempo inútil gasto em sua vida que nunca mais voltaria, e acima de tudo não podia escolher as coisas que queria estudar, tinha que seguir a cartilha do que achavam que era o melhor para você. Eu optei por fazer aquilo que achava certo e paguei um preço caro por isso, acho que nunca mais fui o mesmo depois da minha experiência na universidade. Não que eu não tenha tentado seguir a cartilha, mas não dá, eu NUNCA vou conseguir entrar nesse esquema. Já me conformei com o fato de que um dia talvez eu morra por isso.

Sai da faculdade e fui trabalhar na Telefônica. Ainda tentei de novo voltar para a faculdade, prestei vestibular de novo e fui fazer um curso noturno em Campinas, achando que o problema na verdade era o curso que eu estava fazendo. Mesma coisa. Tinha azia quando tinha de ir para uma aula de física 3 estudar algo que eu não queria, com tanta coisa que eu queria, com tempo da minha vida passando e cada vez menos eu tomando conta das minhas decisões. A experiência no trabalho não era tão diferente, sempre passei noites sem dormir programando porque eu amava o que eu fazia e não queria perder tempo dormindo, ficava revoltado em ter de dormir e não poder terminar meus projetos. Que raio os seres humanos terem de dormir! Mas no trabalho o esforço para te desmotivar a fazer algo legal é tão grande que se eu pudesse acho que eu não voltava do almoço, ia pra casa.

É como se tivesse umas 15 pessoas te segurando e te impedindo de fazer a coisa andar rápido e de forma efetiva. "O cara tá tentando trabalhar! Segura! Segura! Cuidado que senão ele acaba até conseguindo!" É essa a impressão que eu tenho, assim que eu normalmente me sinto, a não em raras ocasiões, como no caso de estar trabalhando em uma Start Up. Trabalhei em uma série de multinacionais, incluindo empresas totalmente privadas, como a IBM, Citigroup, Walmart, totalmente estatais, como o TRT15, e um misto de cada, como o CPQD e a Telefônica, ambas que ainda tinha fortes heranças estatais. Normalmente, farinha do mesmo saco.

Bom, o mundo está errado. Tá tudo ao contrário. O que está errado? Por que ficou assim? O que aconteceu? E principalmente, o que é que eu faço? Votar não adianta, eu lembro bem como é política. Eu vi de perto, conheci como são várias manhas. É um jogo sujo, que nunca é o que parece (aliás é um jogo de aparências) e que é completamente INÚTIL para a sociedade. Empresas privadas então! IBM, Claro, NET, etc. estão aí para me mostrar que também não é a solução. Ô porcaria. Tudo estatal, vou prestar serviço público... Eu vi como é dentro de uma empresa do Estado. Também é assustador. Além de todos que dependem do serviço ficarem com ódio, os funcionários públicos também se ferram. Eles não fazem greve a toa, muito pelo contrário. E se tiver um que quer trabalhar e quer mudar o mundo ao seu redor, ele receberá todos os incentivos possíveis e imagináveis a deixar de fazê-lo. Se escolher fazer isso mesmo assim, vai levar chicotadas constantes sempre que fizer algo e fizer errado. A incompetência pública não ocorre por conta de maus funcionários, ela ocorre por desmotivação dos funcionários ainda maior que em empresas privadas. O mesmo se aplica a professores de universidades públicas, tem muito professor que até é bom, mas é corrompido pelo sistema.

Fazer o que então? Desistir de ser "idealista", pegar um chicote e tentar virar chefe? Afinal de contas o sistema não vai mudar mesmo, já que é assim vamos nos adaptar, tente se dar bem! Não é esse o caminho que eu escolho e minha experiência na faculdade já me mostrou que um ser humano não consegue virar idiota voluntariamente. Tente esquecer algo que você já aprendeu para entender o que estou dizendo. Você voluntariamente consegue esquecer que 2+2=4? Não é assim, você não consegue esquecer algo dessa forma. Eu não conseguiria seguir o modelo atual de trabalho, pois não acredito nele, tenho total descrença em seu funcionamento, o instinto de defesa fala mais alto.

Bom, depois de pensar no assunto durante todos esses anos, lembrei do que fiz na faculdade quando eu percebi que a política não levaria a nada. Tive uma ideia muito simples, mas extremamente eficaz: olhar para o lado e perceber quais as atitudes e as pessoas que estão gerando os melhores resultados, de acordo com a direção que eu acho correta. Percebi que diferente do político do centro acadêmico, do professor ou de qualquer outra pessoa, existiam pessoas que realmente estavam ali buscando conhecimento, questionando e buscando resultados práticos. Comecei a me aproximar dessas pessoas, fazer projetos, experiências, saíamos para discutir e trocar ideias, concordávamos, discordávamos, produzíamos. Tem muita gente que conheci que era totalmente diferente de mim em inúúúmeros fatores, discordávamos um monte, mas  mesmo assim me ajudou muito e contribuiu muito para minha "formação", a formação de quem eu sou hoje. Falo de amigos, colegas de projetos, pessoal que morou na mesma república que eu, etc. Essa rede de contatos de primeira linha foi a grande conquista quando eu trabalhei na universidade, valorizo MUITO os amigos que tenho.

Nessa época, também conheci o Linux, o conceito de open source, free software  e fiquei encantado com a forma como as coisas aconteceram e com os resultados práticos que aquilo teve. Eu usava um sistema operacional no meu computador, feito totalmente por voluntários, ninguém foi chefe deles, não teve um político fazendo aquilo acontecer, não teve um administrador, ninguém delegando tarefas para uma equipe, mas mesmo assim eu estava usando um sistema operacional, o melhor que existia, com possibilidades ilimitadas. Demorou alguns meses para entrar na minha cabeça que aquilo que aconeceu para a formação do Linux realmente tinha acontecido, pois até então eu achava aquilo utopia, impossível. Comecei a entrar em projetos open source e vi diferenças ainda mais gritantes na forma de mudar o mundo quando comparando com a política, pela primeira vez eu via os resultados práticos, ao invés de reclamar eu queria participar, ajudar, queria fazer parte daquilo e que aquilo crescesse.

De lá pra cá tive várias demonstrações de coisas que, na minha visão, mudaram o mundo para melhor. Surgiu e cresceu a wikipedia, youtube e canais abertos estão tirando o monopólio das mídias, substituindo aos poucos a televisão, nas empresas começaram a adotar scrum tirando um pouco da desmotivação no trabalho, etc. Diferente da política, essas coisas sim mudam o mundo para melhor e influenciam completamente nossas vidas. O que é que tudo isso tem em comum? Será que estou perdendo algo aqui? Tem muita gente que parece ter enxergado algo que eu ainda não enxerguei.

Foi então que, recentemente, vi um vídeo na internet falando sobre libertarianismo. Não concordei com o vídeo e critiquei o mesmo, mas a ideia estranhamente me incomodou e tive de correr atrás para entender o que era que eu estava criticando. Vi que existiram vários movimentos, entendi finalmente a diferença entre socialismo e comunismo, conheci o libertarianismo, entendi de verdade o que é anarquismo, anarquia, minarquia, monarquia, diarquia, oligarquia, pqp_arquia, democracia, ditadura, Estado, governo. Comecei a assistir vídeos sobre o assunto, falar com vários tipos de pessoa, com minha família, com o cachorro da minha namorada (discordei dele, inclusive), vi outros vídeos, li, pesquisei, etc. Nunca vou chegar na "resposta definitiva", pois pra mim essa história de verdade absoluta não existe, mas cheguei a conclusões bem interessantes.

De repente, tudo fez sentido na minha cabeça. Continuo discordando daquele vídeo, mas agora parece que me caiu a ficha, as ideias estão mais claras! Agora tenho melhores conceitos do que é anarquia e me senti extremamente motivado a criar o material que eu queria ter tido quando fui pesquisar sobre o assunto. É um assunto pesado, difícil de discorrer, que torna necessário que o leitor esteja com a cabeça bem aberta antes de começar a ler, pois uma das coisas que percebi foi que há vários tipos de pensamento que temos e seguimos, mas nunca questionamos a respeito. Muita coisa nós aprendemos como certo desde crianças na sociedade atual e simplesmente não percebemos.

Nós não lembramos como aprendemos a falar nem nunca questionamos muito nossa fala, é algo que já está enraizado. Algumas pessoas costumam ter dificuldade em entender o infinito, já que desde crianças elas só lidaram com coisas finitas, durante toda suas vidas, e a ideia de infinito não é natural, apesar de me parecer mais correto e razoável achar que todas as coisas no universo tem um início, meio e fim. Com anarquia é a mesma coisa, durante toda nossa vida não recebemos essa ideia como natural, então a dificuldade em enxergá-la é muito grande, mas minha experiência pessoal me diz que vale muito a pena! Espero ser competente o suficiente para conseguir colaborar no esclarecimento da ideia nos próximos parágrafos.

Conceitos e premissas

A primeira coisa que qualquer pessoa precisa entender antes de conhecer melhor os conceitos de anarquia é que anarquia não tem nada a ver com ausência de ordem e sim com ausência de GOVERNO. Ausência de ambos governo e ordem recebe o nome de ANOMIA.

ANARQUIA = AN + ARQUIA = NÃO + Governo = Sem governo, sem chefe. Pode-se entender anarquia como o dual, a alternativa antagônica a HIERARQUIA. Perceba que é errôneo confundir anarquia com anarquismo. Anarquia é ausência de governo e nada mais que isso, enquanto que anarquismo, libertarianismo, comunismo, etc. são movimentos políticos, que ocorreram em um ponto da história, que tentam utilizar anarquia como base de sua proposta. Da mesma forma, socialismo, democracia, teocracia, facismo, etc. são movimentos políticos que tomaram como base alguma forma de organização hierárquica, como monarquia, oligarquia, aristocracia, autarquia, etc.

Vamos verificar um pouco melhor o significado de hierarquia e anarquia abaixo, para que seja possível uma comparação mais justa posteriormente.

Hierarquia

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        Na hierarquia, a uma sucessão de chefes. Uns mandam nos outros, tendo mais poder aqueles que estão mais próximos do topo da hierarquia. Por exemplo, a estrutura de carreiras nas multinacionais atualmente são hierárquicas, o presidente manda no diretor, o diretor manda no gerente, que manda no cordenador que manda nos funcionários operacionais. Pode acontecer de um diretor mandar direto em um funcionário, pulando etapas da hierarquia.  

         Outro exemplo poderia ser o governo, o governo federal manda nos estados, o estado manda nas cidades, que por sua vez mandam nos bairros e em associações de moradores. Claro que no caso do Brasil, isso acontece de forma indireta, o governador não manda diretamente no prefeito, mas o controle se por leis. Uma cidade pode ter suas próprias leis, desde que essas não contradigam leis estaduais, que por sua vez não podem contradizer leis federais.

Um condomínio fechado também tem leis ou normas (regimento interno) e até uma constituição (convenção), mas as mesmas estão submetidas às leis municipais, estaduais e federais. Também há hierarquia na arrecadação de taxas, pois as partes menores da hierarquia pagam obrigações para quem está acima hierarquicamente.

        Para ter melhor o conceito, imagine algumas situações práticas. Por exemplo, no caso das empresas, imagine que 2 funcionários de um mesmo nível hierárquico tenham um conflito. No caso de uma hierarquia, quem está acima na hierarquia, o chefe, decide o embate, resolve o conflito ditando qual é o correto. O funcionário considerado “errado” pelo chefe pode se sentir prejudicado, mas devido a maioria massiva de pessoas na empresa acreditarem o contrário, ele será coagido a respeitar a hierarquia.

Perceba que o chefe não está coagindo o funcionário diretamente, ele tem poder por conta da maioria das pessoas na empresa respeitarem essa ideia. Um chefe fisicamente bem fraquinho teria poder para mandar em um funcionário fisicamente forte e com uma arma no bolso, devido a esse motivo. As pessoas tem medo de quem está acima delas na hierarquia não por coeção direta, mas porque elas mesmas reconhecem o poder de um chefe e a ideia de hierarquia, afinal “alguém tem que mandar”.

Cenário 2: imagine que você, como funcionário, queira criar uma ferramenta útil no seu trabalho, pois você enxerga que essa ferramenta te tomaria um certo tempo primeiramente, mas facilitaria tanto o seu trabalho no futuro que valeria a pena. Você não consegue criar essa ferramenta sozinho e precisa da ajuda de outro funcionário do mesmo nível hierárquico, o qual comprou a ideia da ferramenta, enxerga o mesmo que você e também quer te ajudar. Uma vez que ambos estão abaixo de um mesmo chefe, se o chefe decidir que vocês não podem fazer a ferramenta, vocês não poderão fazê-la.  Se a ferramenta beneficiava a você e não ao chefe, ele não terá interesse em que ela seja feita e vocês terão de cruzar os braços.

Cenário 3: ao invés de funcionários de uma empresa, imagine policiais. Todo dia, eles passam por um ponto de drogas e já tem ciência de quem é quem naquele lugar. Eles sabem quem são os bandidos, quem é vítima e sabem exatamente quem eles deveriam prender ou impedir. Ele falam para o delegado e o delegado concorda em prendê-los, mas vem uma ordem do governador dizendo que eles não podem agir. Depois eles vêem o governador envolvido com o tráfego de drogas da região e montando uma milícia. Mas o que fazer? Ele está mais no topo da hierarquia e ele manda.

Exemplos de organizações hierárquicas

        Abaixo, vou citar alguns tipos de organizações para deixar a ideia ainda mais clara.

  1. Socialismo é uma vertente hierárquica. Diferentemente do comunismo, no socialismo há um único Estado governando tudo e todos. Na época em que surgiu o comunismo, essa foi uma grande diferença entre libertários e comunistas: os primeiros não admitiam a existência de um governo intermediário, já os comunistas aceitavam que houvesse uma etapa intermediária, o socialismo, que tomaria total controle sobre o mundo, sendo seu único governo. Após isso, esse governo poderia se extinguir e as pessoas poderiam viver de forma livre. Particularmente, acho essa ideia de extrema ingenuidade.
  2. Ditadura - é o exemplo mais clássico de hierarquia. O de cima manda, o de baixo obedece. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
  3. Democracia - apesar de muitas pessoas enxergarem democracia como o “povo no poder”, o que aliás o próprio nome já diz (demo = povo, kratos = poder), democracia é o direito de escolha através da maioria. Contudo, ainda há governo, seja ele partindo dos “representantes do povo”, como na democracia indireta, que é o caso do Brasil, seja ele o próprio povo tomando cada decisão, ou seja, decidindo leis, peculiaridades administrativas, etc. totalmente com base em eleições. Muitos definem a democracia como a “ditadura da maioria”, exatamente por esse motivo.

 

Anarquia

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        Diferentemente da noção de hierarquia, não há diferenciação de indivíduos na anarquia. Um indivíduo não manda mais que outro por conta de sua posição, cada indivíduo manda somente em si mesmo, em um primeiro momento. Esses indivíduos, por sua vez, podem associar-se com outros em grupos para conseguirem realizar trabalhos em conjunto, sendo esses grupos o segundo nível anárquico. Os grupos, por sua vez, podem associar-se em outros grupos de grupos, ou seja, o terceiro nível anárquico.

         Assim como a hierarquia, grupos anárquicos podem crescer para organizações de quaisquer tamanhos, bastando a junção de grupos menores, ao invés da divisão de hierarquias em grupo.

        Essa é a base para qualquer movimento anárquico, como comunismo, libertarianismo, etc. A diferença começa a ocorrer no que se refere a noção de propriedade que os indivíduos compartilham entre si quando em um mesmo grupo, ou em como os grupos deveriam se comportar em grupos de grupos, etc.

Exemplos de organizações anárquicas

No comunismo, o qual eu não concordo, se 6 indivíduos pertencem a um mesmo grupo, todos são donos de tudo, a noção de propriedade simplesmente inexiste. O que é de um é de outro. Se um indivíduo pesca 10 peixes e outro pesca 1 e um idoso, por exemplo, não pesca nenhum, não importa, todos tem os 11 peixes. Eu discordo muito dessa visão pelo fato de que não há meritocracia: para que eu vou pescar mais peixes se tudo fica para todos? O mais competente não tem um mérito maior.

No anarco-capitalismo ou liberalismo, vertente do anarquismo libertário, parece haver noção intermediária entre anarquia e hierarquia. Eles defendem o livre mercado entre os grupos de indivíduos, mas não entre os indivíduos do grupo. Cada grupo poderia ser uma empresa ou um grupo de empresas que teriam uma relação completamente anárquica entre si, mas dentro de cada grupo, não haveria o menor problema em continuar existindo a noção de chefe e de hierarquia. Eu também não concordo com esse modelo de anarquismo, pois é simplesmente uma oligarquia. Contudo, assim como o anarquismo libertário, explicado abaixo, a noção de propriedade é total, seja para grupos ou para indivíduos.

No minarquismo, também existe um misto entre anarquia e hierarquia, pois existem ambos, ao mesmo tempo as pessoas se organizam em grupos, conforme descrito acima, mas segundo os minarquistas seria necessária ainda uma mínima hierarquia, que seria responsável apenas pelas funções mais básicas que necessitem de uma hierarquia, como o poder policial. No meu entendimento, os minarquistas são pessoas que já enxergaram benefícios de um mundo anárquico, mas que ainda não conseguiram entender que a hierarquia não é necessária, de forma que não concordo com eles.

Finalmente, há o anarquismo clássico ou anarquismo libertário. Nessa vertente, a noção de propriedade é total. Todo indivíduo poderia ser definido como uma entidade que tem total direito de controle sobre si e sobre suas propriedades, o que incluiria seu próprio corpo, sendo ele o único detentor desse direito.

Os grupos de indivíduos numa relação entre grupos podem ser definidos da mesma forma, uma entidade que tem direito de total controle sobre si e sobre suas propriedades, o que incluiria o território pertencente ao grupo. E assim poderia ser definido sucessivamente para cada nível anárquico. Grosso modo, isso significa que dentro de um grupo vale o direito dos membros do grupo, entre grupos vale o direito “individual” de cada grupo.

Perceba, contudo, que para que seja possível haver uma proteção da liberdade individual passa a ser ainda mais importante o coletivismo e voluntarismo, de modo que algumas pessoas costumam denominar essa linha de anarquismo coletivista, onde ainda há uma proteção da noção de propriedade, mas há igualmente liberdade para que as pessoas trabalhem de forma coletiva em prol do coletivo.

Para conhecer mais vertentes libertárias e se aprofundar mais no assunto, verifique a página sobre anarquismo da wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Vertentes_do_anarquismo  . Todo o conteúdo da wikipédia, incluindo essa página, foi inteiramente construido de forma anárquica e coletiva. São indivíduos trabalhando em prol do coletivo, e não em prol apenas de si mesmos.

Estado, governo, pátria, nação

        Antes de continuar, é importante definir de forma objetiva o que é Estado, já que muitos defendem a não existência de Estado chamando isso de anarquia. Se você procurar na wikipedia, verá que a definição de Estado cadastrada lá vai um pouco contra o que direi aqui, pois ela não faz distinção entre Estado e governo. Não é por acaso: essa é a noção que as pessoas normalmente tem hoje, elas recebem essa influência desde seu nascimento, então lhes é mais natural. Contudo, penso ser incorreta, sendo necessária uma distinção clara do que é um Estado e do que é um governo.

        Governo remete a hierarquia. Um controle central, o topo da hierarquia, dita como as coisas são e serão. A administração atual do país ocorre por um governo.

        Para o restante desse artigo, Estado é definido como o conjunto nação + pátria. Pátria é a terra onde vive uma nação, é o território em si. Nação são as pessoas que vivem nessa terra, com o reconhecimento das mesmas como um grupo. O simples fato de existir um grupo de pessoas em um pedaço de terra não torna esse grupo de pessoas uma nação, o grupo passa a ser uma nação a partir do momento em que o grupo se enxerga como sendo parte de um todo, dá um nome para esse todo e se envolve com as decisões relacionadas ao todo.

        A não existência de um governo não implica necessariamente na ausência de um Estado. Você poderia ter, por exemplo, num território XPTO, grupos de grupos de grupos de pessoas vivendo de forma anárquica, onde cada pessoa, cada indivíduo, se vê como parte desse grupo inteiro vivendo nesse território. Teria se formado então um Estado anarquico em XPTO, formado por grupos e grupos e grupos de pessoas. É perfeitamente possível existir um Estado anárquico, o que não é possível é a existência de um GOVERNO anárquico, pois as duas ideias são antagônicas.

        Mais interessante ainda, para refletir, é perceber que no Brasil temos governo, mas não temos esse sentimento de nação. Boa parte da população, como eu, se sente um ET vivendo aqui dentro, ou seja, não se sente parte de um todo.

        Outro conceito importante é o conceito de cidade-Estado. Não pense que é necessário um grande território para para a formação de um Estado, um condomínio ou uma fazenda poderia ser um Estado, como é o caso da região ocupada pelos Amish , nos Estados Unidos. Aquele grupo poderia ser considerado um Estado pela definição que eu coloco aqui, pois há um sentimento claro de nação dentre as pessoas que vivem naquele território, que não usam nenhum tipo de equipamento eletrônico, eles se sentem parte de um todo vivendo num mesmo território, formando um Estado. Uma vez, contudo, que esse grupo precise pagar taxas aos EUA, poderia ser definido como um Estado subjulgado a outro Estado, hierarquicamente.

Liberdade

        Anarquia é apenas um caminho para maximizar a liberdade humana. O que é um ser humano livre? O fato de terem “libertado” os negros na época da princesa Isabel realmente deu liberdade para alguém? Que fator determina se uma pessoa é ou não livre?

        Liberdade não é algo que pode ser concedido e sim adquirido. Se alguém tivesse de te conceder liberdade para que você fosse livre, você já não seria livre pelo simples fato de ter que pedir permissão. Dessa forma, quando a princesa Isabel assinou a lei que libertava os escravos, eles não deixaram de ser escravos, apenas receberam permissão para se chamarem de livres.

        Liberdade também nunca é plena ou absoluta. Se um ser-humano fosse absolutamente livre, isso implicaria em ele tirar a liberdade de outros humanos. Dessa forma, um ato em si não implica em liberdade ou na falta da mesma, pois além do ato é necessário medir o ambiente que o cerca. Andar de moto pode fazer parte da liberdade de um ser humano, andar de moto 3h da manhã num bairro residencial possivelmente não é.

        Liberdade está, acima de tudo, relacionada com dependência, e deve ser esse o foco quando falamos nisso. Quão mais dependente você é de algo ou alguém, menos livre você é. Por exemplo, se você depende de alguém para conseguir comer, você não é livre para comer. Se você consegue obter recursos para fazer sua própria comida e tem conhecimento e tudo mais que é necessário para fazê-la, você é livre para comer.

        Interessante notar que qualquer ser humano é dependente de outro ser humano, pois nenhum ser humano sobrevive sozinho. Entender esse pensamento é a base para conseguir entender porque é nos latifúndios onde acontece a maior parte de organizações hierárquicas, pois uma vez que um ser humano depende do outro, os humanos só conseguiram ser livres para realizar seus trabalhos individualmente se a forma de trabalho em conjunto assim o permitir.

        Finalmente, cito aqui a liberdade de Bakunin :

Por "liberdade", Bakunin não se referia a um ideal abstrato, mas a uma realidade concreta baseada na liberdade simétrica de outros. Liberdade consiste no "desenvolvimento pleno de todas as faculdades e poderes de cada ser humano, pela educação, pelo treinamento científico, e pela prosperidade material." Tal concepção de liberdade é "eminentemente social, porque só pode ser concretizada em sociedade," não em isolamento. Em um sentido negativo, liberdade é "a revolta do indivíduo contra todo tipo de autoridade, divina, coletiva ou individual."

Anarquismo

        Não adiantaria defender algo em que eu não acredito, portanto vou focar o restante das explicações nesse tipo de anarquia, que é o que eu defendo, o anarquismo libertário ou simplesmente anarquismo.

        O que foi dito acima foi só a base para poder explicar como seria um mundo assim. Contudo, fica muito difícil olhar para toda essa teoria e imaginar como seria um mundo anarquico sem exemplos e é isso o que tentarei dar agora.

Como já disse acima, muitos pensam em anarquia como total ausência de ordem, o que não é verdade. Contudo, faz muito sentido verificar que a maioria das pessoas pensam assim, pois aqui no Brasil passamos recentemente por uma ditadura e desde o descobrimento somos um país 99% católico, sendo que somente recentemente essa percentagem tem diminuído.

Ao imaginar uma anarquia, a maioria pensa em um mundo sem polícia, sem administração, sem regras. Tente imaginar, agora, um mundo da forma como vou descrever abaixo:

Imagine um Estado hipotético, ou seja, uma nação vivendo em um território, seja grande ou pequeno. Imagine que esse Estado, da mesma forma que hoje, tenha uma força policial, hospitais e escolas. Como funcionaria cada um desses serviços em um Estado anarquista?

Polícia

Vamos começar pelo mais polêmico, a polícia. Para haver polícia, são necessárias leis e leis são baseadas em uma constituição. Então para que seja possível descrever como seria a polícia, primeiro temos de descrever como seria a constituição e as leis desse Estado anárquico.

Numa anarquia, não há chefes para controlar indivíduos. Isso nos remete a estudar no que causa os problemas de relações entre os indivíduos. Por que o ser humano faz guerras? Por que o ser humano briga com outro ser humano? Podemos estudar as relações humanas de forma científica para tentar determinar essas variáveis. Se olharmos para a história ou mesmo para nosso cotidiano, podemos reconhecer um padrão como causa: sempre que um indivíduo tenta subjulgar o outro, ou que um grupo tenta subjulgar o outro, há conflitos.

Mais interessante ainda, é que é justamente isso o que costuma servir de desculpa para alguém injetar controle em uma população. Houve uma tentativa de um subjulgar o outro, então para impedir isso, colocamos alguém no topo da hierarquia, subjulgando ambos. Percebe a falácia nesse argumento? É necessário ser subjulgado para não ser subjulgado.

Para que os indivíduos sejam livres, é necessário que eles não sejam subjulgados. A constituição de um Estado libertário, portanto, deveria ser tal que que a prioridade fosse a liberdade individual. Isso pode ser expresso como o “princípio da não agressão”, tão citado pelos liberais. Não seria possível uma lei que definisse, por exemplo, se a pessoa pode ou não usar drogas, se ela pode ou não ser homossexual, etc., pois uma vez que um indivíduo não viole o princípio de não-agressão, ou seja, uma vez em que ele não está agredindo a liberdade de outro, ele não poderia ser coagido, através de uma lei, a fazer algo com o próprio corpo. Seu corpo é propriedade individual dele.

Note que o princípio de não-agressão não é um pacto, é um princípio . Nossa constituição atual parte de diversos princípios para sua formação e uma constituição libertária partiria desse princípio básico. Pergunta: o que levaria a pessoas de uma sociedade a criar leis de acordo com tal constituição? A mesma coisa que faz com que as pessoas criem as leis atuais de acordo com os princípios atuais, a ideia predominante sobre o que é certo e o que é errado em uma nação. Mais abaixo, discuto sobre a viabilidade do anarquismo e volto a falar desse ponto.

Bem, uma vez que a constituição é a base para uma anarquia, pois ela define grosso modo o que é direito de um indivíduo e o que não é, são necessárias leis. As leis tem de ser feitas por alguém correto? Quem faria? Mantenha a mente aberta, pois é bem provável que, assim como eu, inicialmente você não ache correta a ideia. Contudo, a prática tem mostrado que o que citarei agora funciona.

A lei seria um documento aberto, mantido por um grupo de voluntários. Uma vez que a população desse Estado precisa de regras, essa população procuraria alguma referência e passaria a utilizar um documento como referência. Esse documento seria reconhecido pela maioria como a regra oficial e por isso, todos a respeitariam, mesmo não concordando muito com alguns pontos. Contudo, como tenho certeza que a maioria que está lendo esse artigo vai discordar desse ponto, vou citar o que ocorreria em alguns tipos de situação fáceis de se imaginar.

Vamos supor que houvesse conflito entre o que parte da população (conjunto A) pensa ser correto e o que outra parte da população (conjunto B) ache correto. Um grupo de voluntários do grupo A cria um documento de leis e ele é aceito sem muitos problemas pelo conjunto A. Contudo, o pessoal do conjunto B acha tão injusto e inaceitável, que um grupo de voluntários resolvem criar um outro documento de leis antepondo o outro. Acabaria acontecendo que numa determinada região, a polícia passaria a seguir mais a lei A e em outra, a lei B. Na prática, se isso realmente incomodasse muito, as pessoas optariam por mudar-se para mais perto de seus semelhantes. Se realmente não houvesse consenso, esse Estado acabaria sendo partido em 2.

Agora, é preciso notar que esse tipo de coisa é natural, benéfico e, principalmente, raro. De que tipo de discordâncias estamos falando aqui? Uma premissa de um Estado libertário é que as pessoas tenham uma noção clara de liberdade individual. Sem essa noção, é claro que não funcionaria. Inclusive, a hierarquia só funciona hoje porque boa parte da população tem uma forte noção de hierarquia, que é empurrada para nós desde que nascemos. Se a população não tivesse uma forte noção de hierarquia como tem, quando um chefe te mandasse fazer algo, não teria porque você obedecê-lo.

Você tem que tentar imaginar a situação acima tomando como premissa que boa parte da população desse Estado já tem essa noção. Do contrário, é claro que não funcionaria. Contudo, uma vez que as pessoas obtém de fato essa noção de anarquia, é igualmente difícil, ou ainda mais difícil, que elas voltem atrás para a noção de hierarquia. Um exemplo sou eu mesmo, que não consigo mais ser feliz com a existência de um governo. Imaginem acontecendo em massa o que aconteceu comigo :D.

Seria assim que a polícia agiria, portanto. Cada policial deve saber fazer o seu trabalho e todo policial precisa de uma lei para conseguir trabalhar. Os policiais, portanto, passariam a ser os voluntários que exigiriam o cumprimento da lei aceita ou então seriam pagos para executar esse serviço. Se eles vissem um crime ocorrendo, eles não teriam de pedir permissão para nenhum chefe para aplicar as penas, eles aplicariam de prontidão as penas ao criminoso, pois são eles, os policiais, quem sabem fazer isso melhor: seguir as leis e aplicar as penas.

E se um policial fosse corrúpto? E se um policial tentasse roubar? Os outros policiais o prenderiam, primeiro porque seguem e reconhecem a lei como referência e segundo porque roubar é claramente ilegal. Esse é um caso tão simples que eles nem precisariam de lei, roubar viola o princípio mais básico de qualquer constituição libertária, o princípio da não agressão. Agora, se um motoqueiro passar 3h da manhã num bairro residencial fazendo barulho, o policial terá de verificar o que diz a lei. Qual liberdade prevalece, a do motoqueiro de andar de moto ou a da população local de dormir? Num Estado com indivíduos muito festeiros, pode ser que a lei dissesse que andar de moto é mais importante :D.

Finalmente, tente entender que o objetivo da anarquia não é só ser mais permissivo, mas obter um cumprimento das normas mais efetivo. Quando as leis são absurdas, as pessoas deixam de segui-las ou mesmo que sigam passam a fazer vista grossa quando alguém não segue. É o caso de querer impedir um usuário de se matar, uma prostituta de vender seu corpo ou obrigar as pessoas a pagar rios de dinheiro por um software famoso. Eu não quero essa desordem hierárquica em que vivemos, não quero essa palhaçada de ter atendimento imediato e via internet na hora de comprar um produto e ter de ir até o procon e pegar fila durante 6 horas para fazer uma reclamação e não ser atendido. Eu quero leis efetivas, quero ORDEM, quero ANARQUIA!

Hospitais

        Como funcionariam os hospitais num Estado anarquista? Totalmente com base no voluntarismo ou como serviço contratado, como no caso da polícia. Contudo, diferente do que acontece hoje, o médico seria total responsável pela melhor forma de atender os pacientes, não estando sujeito a normas de um administrador de empresas que nada entende de medicina.

        Diferentemente do que acontece hoje, os médicos teriam de estudar medicina de fato e não se tornarem técnicos em medicina. Medicina é uma das ciências mais difíceis de serem estudadas na atualidade e é necessário que a mesma seja tratada com o devido respeito. Não dá para tratar o médico como um peão, achando que um chefe saberá mais sobre como o médico tem que fazer seu trabalho do que ele mesmo.

        Esse tipo de profissão seria o tipo mais beneficiado num Estado anárquico, pois a inteligência dos individuos estaria acima de qualquer padrão e medicina, como sabemos, não é o tipo de profissão que se resume a seguir uma série de padrões.

        Além disso, falhas na administração de hospitais como as que ocorrem hoje em hospitais públicos não ocorreriam mais, pois as pessoas se organizariam de forma situacional, ou seja, a pessoa que numa organização hierárquica estaria no último nível da hierarquia poderia tomar decisões completamente diferentes de acordo com a situação na qual ela se encontra.

Acho que as pessoas morreriam muito menos em hospitais.

Escolas

        Creio que as escolas deveriam ser a primeira coisa a ser mudada no caminho de um Estado anárquico. Da forma como as escolas são hoje, os professores são hierarquicamente superiores aos alunos. Isso necessariamente implica que o aluno tem que dar respostas que agradem ao professor ao fazer uma prova, ou ele não será aprovado e não conseguirá um diploma.

        Várias coisas erradas aqui. Primeiro que diplomas são títulos inúteis, servindo para designar um cargo hierárquico. As pessoas não deveriam ser valorizadas por diplomas e sim por seu respeito perante aos que convivem com elas, que conhecem elas e seu trabalho. Segundo que não dá pra impor ao aluno o certo ou o errado, a escola deveria servir como um espaço de livre pensamento, onde os alunos recebem influencias distintas o dia inteiro e decidem por si só no que acreditar ou no que seguir. A avaliação teria de ser separada, totalmente, do ensino. Isso por si só já seria um grande avanço na sociedade atual, separar a instituição que aprova da que ensina.

        Terceiro, a avaliação deveria servir para que o aluno pudesse se avaliar e saber do que é capaz e do que não é, deveria ser algo para ajudar o aluno e não para impor a ele uma linha correta de pensamento, como ocorre hoje. A responsabilidade de aprendizado tem que ser do aluno, não da escola.

Os alunos tem de ir para a escola por sentir a necessidade real de conhecimento, pois sem conhecimento eles não conseguirão executar nenhuma atividade em suas vidas práticas e não poderão, como ocorre hoje, ficar esperando que o governo faça as coisas que eles deveriam fazer, como dizer ao aluno como ele deve trabalhar, como ele deve se vestir, como ele deve PENSAR.

Quanto mais os alunos forem educados de forma a se tornarem independentes, seja do governo, da família ou de qualquer um, mais anarquista será a educação. Quanto mais for colocado na cabeça do indivíduo a noção de que ele não precisa saber de algumas coisas, que basta seguir regra A ou regra B, maior a dependência do indivíduo para com alguma forma de governo.

A educação deve ser LIVRE, com base na necessidade real de saber e não na imposição de conhecimento.

Viabilidade

Por mais que eu tenha tentado deixar o texto acima completo, tenho certeza que quem estiver lendo ainda ficará com muitas dúvidas e questionamentos. Não poderia ser diferente, qualquer solução pronta é irreal e trás mais malefícios que benefícios. O que me fez seguir em frente quando eu questionei sobre tudo isso foi o fato de eu estar incomodado e querer encontrar uma alternativa viável para a democracia, após eu perceber que ela não funciona. Espero que depois de terminar de ler esse texto você também sinta um pouco de incomodo e isso te instigue ao menos a pesquisar mais sobre o assunto, da mesma forma como aconteceu comigo.

O principal fato que influencia na viabilidade da formação de Estados anárquicos sem dúvida é o conceito que as pessoas tem e o valor que elas dão à liberdade. Desde pequenos somos ensinados a pensar de forma hierárquica e me perdoem aqui os teístas, mas na minha opinião isso ocorre principalmente por influência religiosa, sendo essa o principal malefício causado pelas igrejas. No livro “Deus e o Estado”, de Bakunin , isso fica especialmente claro.

As igrejas tem por função tornar o povo mais “controlável”, embutindo desde cedo na cabeça das pessoas noções falaciosas como necessidade hierarquia, messianismo, como se tudo tivesse de ter um “salvador” ou responsável, colocando na cabeça das pessoas a ideia de que elas não precisam correr atrás de sua independência, que ser dependente é normal, que elas devem temer a alguém e obedecer a alguém, sendo essa ideia normal. As pessoas não concluem isso, elas são bombardeadas com essas ideias desde seus nascimentos.

Já pensou em ir na igreja e questionar em público ensinamentos de um padre? Há alguns séculos, isso dava fogueira. Eu não sei no que dá hoje, nem quero descobrir. Na igreja vale muito mais a hierarquia que qualquer pensamento racional.

Sem dúvida, contudo, a manobra realizada pela igreja mais gritante contra a liberdade é o estímulo a não aceitação de quem é diferente. A partir do momento em que não há um respeito muito grande para com os outros indivíduos, fica muito fácil haver conflitos entre os mesmos, tornando o caminho muito mais fácil para que uma “autoridade” se faça necessária e se mostre como “salvadora”, tomando o controle das pobres mentes que sequer enxergam o que está acontecendo com elas.

Isso já aconteceu comigo, já aconteceu com a maioria dos ateus que eu conheço, e com certeza, nesse Brasil em que vivemos, já deve ter acontecido contigo. Eu tento alertar e explicar para os outros meu ponto de vista, para que enxergando o que eu passei eles tenham a chance de não serem mais enganados assim como eu fui, mas na prática dá medo de fazer isso, pois sempre tem um mais radical que não aceita novas ideias e pode querer me queimar na fogueira, dizendo que sou sem coração e que mereço morrer. Tomara que isso não aconteça. :(

Transição

Em resumo, para que seja viável uma anarquia, é necessário começar pela cabeça das pessoas. Eu não começaria uma organização anárquica com pessoas não preparadas para isso nem faria uma revolução, é melhor escrever um artigo ou um livro e quando a ideia estiver forte na cabeça de um conjunto de pessoas, acontecerá naturalmente, bastando esse conjunto de pessoas se unir em prol de si mesmas, formando o primeiro Estado anárquico. Os subsequentes virão naturalmente, já que a economia de um Estado anárquico é muito mais forte que a economia de uma hierarquia, qualquer que seja.

Eu imagino uma transição bem gradual da seguinte forma: imagine um grupo de pessoas que pense da forma como descrita nesse artigo. Por mais que tenham de pagar impostos para o governo, esse grupo de pessoas poderia se unir e comprar uma fazenda, razoavelmente grande. Dentro dessa fazenda, na medida do possível ainda obedecendo as regras do governo democrata, formariam uma anarquia, tentando ser o mais independentes o possível do governo ou de qualquer outro Estado.

Aqui no Brasil, essa ideia é possível ainda, embora um pouco difícil, pois os estados (com E minúsculo) tem menor autonomia para montar suas próprias leis e juntar uma grande quantidade de pessoas que não queiram depender do governo é especialmente difícil. Nos EUA, um projeto interessante surgir nessa linha, chamado “Free State Project”, que tem o objetivo de conseguir um certo número de pessoas pensando dessa forma para conseguir hoje o poder do menor estado americano: New Hampshire .

Reflexões finais

        Depois que me caiu a ficha, quando vejo pessoas brigando por partido A ou partido B é como se eu visse um palmeirense brigando com um são paulino. Ter a ilusão de que um dia algum partido ou algum “messias” será eleito e mudará o país é como acreditar na terra prometida ou em um conjunto de 20 virgens te esperando no céu. Cada um tem a liberdade para pensar o que quiser, mas espero que esse texto, apesar de enorme, tenha tido o mínimo de valia nem que seja para te ajudar a refletir, mesmo que você não concorde. Eu mesmo demorei muito para começar a seguir essa linha de pensamento.

        Que a luz cruze o caminho de todos nós e que o mundo um dia seja livre de fato, não dependente de um governo, mesmo que eleito pelo povo, mas LIVRE, de fato, sem governo.

Se há governo, eu sou contra! :D

Bibliografia  

Referências:

  1. http://pt.wikipedia.org/wiki/Mikhail_Bakunin  - Bakunin, o autor com ideias mais próximas, até agora, do que eu considero correto e funcional. Palavras de Karl Marx: “ No geral ele é um dos poucos, penso eu, que não retrocedeu após estes 16 anos, pelo contrário, avançou ainda mais." (Brian Morris, Bakunin: The Philosophy of Freedom, 1993, p29)
  2. http://pt.wikipedia.org/wiki/Deus_e_o_Estado  - “Deus e o Estado”, livro de Bakunin explicando o quanto a igreja está associada ao conceito de controle da sociedade.
  3. http://pt.wikipedia.org/wiki/Anarquismo
  4. http://pt.wikipedia.org/wiki/Heterarquia
  5. http://pt.wikipedia.org/wiki/Comunismo
  6. http://pt.wikipedia.org/wiki/Socialismo
  7. http://pt.wikipedia.org/wiki/Hierarquia
  8. http://pt.wikipedia.org/wiki/Hierarquia_cat%C3%B3lica
  9. http://mises.org/  - portal da corrente libertária atual, a qual não concordo. Ele pregam uma liberdade apenas para empresas, não para trabalhadores.
  10. http://mises.org.br/  - versão brasileira do mises.
  11. http://www.libertarianismo.org/  - Na linha do mises
  12. http://www.youtube.com/watch?v=KXsc5HTrIu4&list=UU-nr9CZ9LglgqMOqSSlzytg&index=26&feature=plcp  - Vídeo original que deu origem a tudo, o qual não concordei: "Petrobrás, privatizem já!"
  13. http://www.youtube.com/watch?v=DPAF3ZAHjFg&list=UU-nr9CZ9LglgqMOqSSlzytg&index=27&feature=plcp  - Princípio da não agressão
  14. http://www.youtube.com/watch?v=MIPq6L5GbGQ  - Jorge deve ajudar
  15. http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_coletivo&op=loadVerbete&palavra=-arquia  - ARQUIA, definição
  16. http://en.wikipedia.org/wiki/Free_State_Project  - Sobre o “Free State Project”
  17. http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1402  - Melhor artigo que encontrei no mises - compara o governo ao “precioso” anel de “Lord of the rings”, que não pode ser usado para o bem.